30
Jun 12

publicado por flordocardo às 01:32
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*  *  *

 

Lugar II

 

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.

E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.

Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.

Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme

batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.

E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.

Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior
da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.

Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.

                        Herberto Helder (n. 1930)

 

publicado por flordocardo às 00:23
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29
Jun 12

 

 

*   *   *

 

 

ÀS VEZES TENHO IDEIAS FELIZES

 

Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?... 

                                        Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa)

 

publicado por flordocardo às 01:38
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publicado por flordocardo às 00:51
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27
Jun 12

 

 

*   *   *

 

«Quem tem dinheiro paga, mas nunca paga caro.»
                                                                                                         

Alvaro Corrado

publicado por flordocardo às 03:47
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*   *   *

 

Foi mesmo agora tornada pública uma coisa chamada «Convocatória para um Congresso Democrático das Alternativas». Congrega "socialistas", "comunistas", independentes, bloquistas, gente das artes e da cultura... Gente que pretende «denunciar» o memorando assinado com a tróika e «defender o Estado Social».

Considerando que o programa de quem governa Portugal se resume a “Só vamos sair da crise empobrecendo”, e que estamos entregues «à gestão de uma direita obsessivamente ideológica», os autores da iniciativa pretendem lutar pela «democratização das instituições europeias» e «abrir uma negociação com todos os credores para a reestruturação da dívida pública».

Eu, pecador, me confesso: desconfio, logo à partida, de gente que adopta o famigerado Acordo Ortográfico para apresentar este tipo de iniciativas. Mas passemos adiante...

Um Congresso «das alternativas» pressupõe, desde logo, que existe mais do que uma alternativa ao plano da tróika e à política reaccionária do governo PSD/CDS-PP. Não! Ou há UMA alternativa ou não há! Eis, assim, a primeira incongruência nebulosa dos promotores deste Congresso.

Depois, que infindável e inqualificável estupidez é essa de considerar que a direita exerce uma governação «obsessivamente ideológica»?! As governações sempre obedeceram e sempre hão-de obedecer a uma ideologia - a ideologia da classe dominante. Querem ver que umas pitadinhas a menos de ideologia fariam a governação de Passos/Portas ser melhorzinha e mais comestível?... O actual executivo, cheio de tecnocratas, será assim tão ideológico quanto o pintam? Ou será que os autores da presente iniciativa somente visam, com este linguajar ridículo, esconder a sua própria falta de ideologia revolucionária?

Seguidamente, o que é isso de «denunciar» o memorando? É rasgá-lo? Não... Trata-se (estando o memorando, a meu ver, mais do que denunciado pelo povo) de «negociar» a «reestruturação da dívida pública» com os senhores da tróika, ou seja, com os agentes dos credores... E ainda por cima com «todos» eles, como o documento faz questão de salientar. Lindo! E a "lindeza" prossegue com a exposição da pura ilusão de que se pode lutar pela «democratização das instituições europeias», as quais estão nas mãos do imperialismo alemão, dos credores, do grande capital, em suma. Não se pode, meus caros! Do que os senhores deviam falar, isso sim, era da luta pela unidade dos trabalhadores europeus contra o capital; mas quanto a isso... Quanto isso, adeus ó vindimas!...

Por este caminho não se vai longe nem a lado nenhum (a não ser contra uma parede de betão armado). O caminho certo para resgatar Portugal das mãos dos seus algozes internos e externos passa por RENEGAR A DÍVIDA!

Apesar de tudo vou continuar atento. Até 5 de Outubro, data aprazada para o dito Congresso, muita água vai correr sob as pontes. E, quem sabe... Talvez venha a valer a pena dizer o que aqui fica dito, cara a cara, aos promotores do «Congresso Democrático das Alternativas» - caso este, claro está, se revele mesmo vir a ser democrático.
 
publicado por flordocardo às 01:08

25
Jun 12
publicado por flordocardo às 20:00
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Para reflectir. Para divulgar!

 

publicado por flordocardo às 13:50

24
Jun 12

 

*   *   *

 

Pois é. Na sexta-feira lá fui à Junta Médica. Foi assim:

 

- Então o que teve?

- ...

- Notas de alta?

- ...

- Então volta cá no dia 24 de Julho, pelas 14 horas. As melhoras!

 

Por entre aviões passando de minuto em minuto, um senhor e duas senhoras mal me olharam. E assim se foi uma manhã, um tempo e algum dinheiro.

 

Da maneira que isto está ainda hei-de ser "visto" por vídeo-conferência...

 

publicado por flordocardo às 14:11

 

 

publicado por flordocardo às 03:55
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