31
Jul 12

 

 

*   *   *

 

O TEMPO E OS OLHOS

 

 

Há um minuto quebrado

- Um instante que estava prometido -

Num busto de gesso mutilado

Com pó acumulado

Aonde o coração tinha batido

 

Não quero ser estátua nem esboço.

Antes a aranha que lhe tece a teia

Do que o volume imóvel duma veia

Que sobressai dum músculo sem osso.

 

Não quero ser a forma repartida

Por quantos a copiam e separam

Da sua íntima luz adormecida.

 

Quero é um corpo que tenha cheiro, e vida.

Quero na estátua as mãos que a modelaram.

 

Quero os teus olhos húmidos e graves

E tristes de pensar,

Postos no tempo sem o copiar

E suspensos dele, como o das aves.

 

 

                                           António Norton

 

(in «Líricas Portuguesas - II Volume» - Selecção e apresentação de Jorge de Sena - Edições 70, 1983)

 

publicado por flordocardo às 17:32
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30
Jul 12

 

publicado por flordocardo às 03:06
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29
Jul 12

 

*  *  *

 

Quatro auto-retratos
 

2

Porque será que meus olhos tanto necessitam

de ver mar ao longe?

                             Ou pelo menos a água

de um rio

             para aí cheirar a sua raiz

Se calhar foi por tanto apetecer o azul

da água ao longe

                           que meus olhos são claros

e por tanto amar o mar

                           que meus desgostos

se tornaram destemidos e salgados

                                                      e têm

o voo a pique das gaivotas

                                         e o grito ácido

dos pássaros marinhos
 

                                                                     Teresa Rita Lopes (n. 1937)

(do livro «Afectos» - Lisboa, Edit. Presença/2000)

publicado por flordocardo às 03:19
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28
Jul 12

 

              *   *   *

 

 

Andam por aí uma série de coisas a correr..., assim..., a modos que para o torto. E essas coisas surgem de vários lados ao mesmo tempo e, por vezes, de onde menos se esperaria.

Acontece.

Daí a música de há pouco; daí o facto de ainda estar acordado a esta hora; daí...

Não, não é da saúde (ainda que eu ache que anda por aí muita gente a precisar de algo como uma «terapia de grupo», salvo seja). A saúde vai indo razoavelmente bem, de acordo com as últimas análises, o último TAC, a última consulta médica, etc. É claro que é um suplício não saber se e quando volto a ser operado; mas quem aguentou o que eu já aguentei...

Porém, talvez mesmo motivado por estas coisas, chega por vezes aquele momento que nos força a um impulso. Pois é...

Vou reunir os meus poemas; vou reuni-los nem que chovam picaretas. Tomei esta decisão fez ontem oito dias e já estou a trabalhar na coisa.

Poemas reunidos. Serão o meu rasto portátil (quem sabe se publicável). Coisas.

Vou precisar das ajudas de uns amigos? Ah, pois vou!

Entretanto, continuem por aí, está bem?

 

publicado por flordocardo às 04:03
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27
Jul 12

 

 

publicado por flordocardo às 23:24
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26
Jul 12

 

 

*   *   *

 

«Ainda que sejas prudente e velho, não desprezes o conselho.»

 

publicado por flordocardo às 16:30

25
Jul 12

 

 

publicado por flordocardo às 00:30
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*   *   *

 

RECENTES FRASES SALOIAS DE ALGUNS «AZEITEIROS» NACIONAIS:

 

- «Portugal é hoje um país respeitado.» (Cavaco Silva ao semanário Sol)

- «As exportações são o driver da nossa empresa» (um “empreendedor” qualquer, algures num canal televisivo)

- «As eleições que se lixem.» (Passos Coelho)

 

 

publicado por flordocardo às 00:30

23
Jul 12

 

 

*  *  *

 

Aqui tomo a liberdade de transcrever uma crónica do poeta

António Manuel Pires Cabral.

 

*

 

OS POLÍTICOS-JOTA
 
Falar de qualquer coisa jota lembra irresistivelmente os famigerados vagões-jota, que noutros tempos - os tempos em que tínhamos comboios a circular nas nossas linhas - transportavam mercadorias e, se preciso fosse, gente também (coisa que eu cheguei a ver, com estes dois que a terra há-de comer), e que inspiraram o título do (talvez) último romance neo-realista de Vergílio Ferreira. 
 

Mas não é de vagões-jota que quero falar agora, nem de qualquer outra coisa com rodas; é de uma coisa com pernas: políticos. (Se bem que estes, em matéria de rapidez, ultrapassem de longe os ronceiros e saudosos vagões-jota, como se tem visto e demonstrado todos os dias.)
 

Quem como eu já escreveu bem para cima de um milheiro de crónicas provavelmente já teve ocasião de falar de tudo e mais alguma coisa.
 

Este caso da licenciatura de Miguel Relvas - que cheira tão mal ou pior do que a de José Sócrates - já andava prefigurado numa crónica minha de há mais de vinte anos atrás, de que já perdi o rasto, mas me lembra que fazia uma previsão sombria sobre o comportamento dos futuros homens de estado e de partido. Dizia eu então que a qualidade humana e ética dos políticos vinha decrescendo a olhos vistos. Em vez de uma cultura de serviço público instalava-se insidiosamente uma cultura de carreirismo pessoal. E concluía qualquer coisa como isto: quando chegar a altura de essa rapaziada das jotas tomar o poder, passarão a reinar o oportunismo, o cambalacho, as promiscuidades duvidosas, os golpes palacianos, o arranjismo, o erigir das ambições pessoais em fim último da política.
 

Era pouco mais ou menos isto que eu dizia, por outras palavras, bem entendido.
  

De facto as jotas, aconchegadas aos partidos de que mamaram a ronha, foram - com excepções, evidentemente - uma escola de políticos talvez competentes (no sentido de capazes de atingirem os seus fins, que todavia não eram, como deixo dito, de uma brancura angélica), mas seguramente dúbios humana e eticamente.
 

Pois bem: as minhas previsões estão a mostrar-se certeiras. A hora da rapaziada das jotas chegou. Há por aí a circular uma geração de políticos oriundos das jotas que não me deixa mentir. Cumprido o rito de passagem, ei-los a ocupar os mais variados lugares da administração pública, onde deixam demasiadas vezes impressa a dedada do pecado original da sua formação partidária e da sua concepção da política, em cujo topo estão a busca da eficiência e de resultados a todo o custo - e quando se diz ‘a todo o custo’ tem-se em mente toda uma série de manigâncias, cumplicidades, compadrios, golpes baixos, em suma.
 

Não sei se José Sócrates e Miguel Relvas pertenceram às jotas respectivas (por acaso até me está lembrar que julgo ter lido algures que Sócrates debutou na JSD, mas não tenho à mão meios de o confirmar). Mas de alguma forma eles constituem o tipo do jovem político-jota. São eficientes, disso não restam dúvidas. Mas a sua eficiência deixa um rasto de situações equívocas, rabos-de-palha, irregularidades, vícios de carácter que se vão somando até que o cidadão comum, que ainda acredita que a política pode ser construída segundo outros padrões e sobre outros alicerces, sente uma náusea pior do que a que sentia Sartre quando se interrogava sobre o sentido da existência. 

In ‘Repórter do Marão’, Julho 2012

 

publicado por flordocardo às 10:41

 

 

publicado por flordocardo às 01:57
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Julho 2012
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