29
Mar 13

 

 

publicado por flordocardo às 22:20
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*   *

 

- 3 Poemas do livro «A Terceira Miséria», de Hélia Correia (n. 1949) -

 

*

 

23. (A terceira miséria é esta, a de hoje)

 

A terceira miséria é esta, a de hoje.

A de quem já não ouve nem pergunta.

A de quem não recorda. E, ao contrário

Do orgulhoso Péricles, se torna

Num entre os mais, num entre os que se entregam,

Nos que vão misturar-se como um líquido

Num líquido maior, perdida a forma,

Desfeita em pó a estátua.

 

 

24. (O que não sabe)

 

O que não sabe

De cor poemas como os que salvaram

Literalmente os soldados que, vencidos

E condenados a morrer à míngua

Ou a serem vendidos como escravos -

Atenienses contra Siracusa -,

Deram aos inimigos, mais valioso

Do que ouro podia ser, versos de Eurípides,

E em troca disso foram libertados.

 

 

33. (De que armas disporemos, senão destas)

 

De que armas disporemos, senão destas

Que estão dentro do corpo: o pensamento,

A ideia de polis, resgatada

De um grande abuso, uma noção de casa

E de hospitalidade e de barulho

Atrás do qual vem o poema, atrás

Do qual virá a colecção dos feitos

E defeitos humanos, um início.

 

 

(Edição da Relógio D’ Água Editores, Fevereiro de 2012)

 

publicado por flordocardo às 18:46
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28
Mar 13

 

*   *

 

   Não falemos já do que se passa no Iraque, no Afeganistão, na Síria, no Mali, na Palestina, no Egipto, na Península coreana, no Mar da China…, países e regiões onde a guerra se processa, ora de forma aberta e declarada, ora de forma encapotada… Nem falemos das alterações estratégicas militares que os EUA estão a levar a cabo, prestando maior atenção à região do Pacífico…

   Falemos por agora de um outro tipo de guerra.

   Falemos dos BCRICS: China, Rússia, Brasil, África do Sul e Índia. Os BRICS resolveram esta semana criar um banco. Um banco, previsivelmente poderoso, destinado a promover o “desenvolvimento sustentável” dos países em vias de desenvolvimento. Na mesma ocasião, a China e o Brasil assinaram um acordo para a troca de divisas, no intuito expresso de se precaverem das flutuações do dólar e da presente turbulência financeira internacional.

   Falemos das fusões e/ou acordos entre companhias aéreas, o último dos quais acaba de envolver a “Qantas” e a “Emirates” e que vai proporcionar um vasto alargamento de rotas a tais companhias.

   Falemos da EADS, grupo de aeronáutica e defesa cujos accionistas vão, no próximo dia 2 de Abril, aprovar que a Alemanha, a França e a Espanha, países fundadores do projecto, não devem poder monopolizar o grupo (só podem passar a deter entre 12 e 4 por cento das acções).

   E, é claro, podemos falar da Europa; da Europa do euro, da Europa a caminho do precipício - como agora se tornou absolutamente cristalino com o extraordinário caso do “resgate” a Chipre.

   Podemos e devemos falar de uma UE onde a famigerada necessidade de austeridade já está a abraçar a França e a própria Inglaterra.

   Podemos e devemos falar de uma UE onde um ministro alemão das finanças acaba de acusar os PIGS de serem «invejosos»…

   Pois é… Inequivocamente, estamos em estado de guerra mais ou menos generalizado. E a guerra tem sempre duas faces: a face económica e a face das armas. Tal qual a revolução, não é assim?

   Uma coisa eu tenho por certa: ou a revolução impede a guerra, ou a guerra desencadeará a revolução.

 

(PS - O presidente russo, Vladimir Putin, determinou a realização a partir desta quinta-feira de grandes exercícios militares na região do mar Negro. Putin emitiu ordem para o início dos exercícios quando voltava da cimeira dos BRICS na África do Sul, segundo declarou o seu porta-voz, Dmitry Peskov.)

 

publicado por flordocardo às 15:54

27
Mar 13

 

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Foto de tugaleaksFoto
publicado por flordocardo às 17:08

25
Mar 13

 

*  *  *

 

«Merkel, tal como Hitler, declarou guerra à Europa para manter o espaço económico vital para a Alemanha.»

 

E mais adiante: Merkel... «castiga-nos para proteger as suas grandes empresas e bancos e também para ocultar perante o seu eleitorado a vergonha de um modelo que fez com que o nível de pobreza no seu país seja o mais alto das duas últimas décadas, em que 25% dos seus empregados ganhem menos de 9,15 euros por hora...»

 

De um artigo  de opinião publicado no site do "El País" (posteriormente censurado), assinado pelo economista Juan Torres López.

 

Sem comentários!

 

publicado por flordocardo às 23:31

24
Mar 13

 

^

 

O PS decidiu apresentar uma moção de censura ao governo. Porém, não contente com tão pouca coisa, resolveu escrever também - e antes daquela - uma carta à troika. Para... Para explicar aos amos a razão de ser da moção e reafirmar que está disposto a cumprir os compromissos expressos no memorando assinado com a troika...

 

O PS do Tozé não dá ponto sem nó...

 

publicado por flordocardo às 19:54

22
Mar 13

 

*   *

 

XXVII

 

Exausto da viagem que os membros todos cansa

em busca de repouso ao leito vou depressa,

mas em nova jornada o espírito se lança

a dar labor à mente quando o do corpo cessa,

que em fervente romagem vão até ti, despertas,

estas minhas ideias se longe estou deitado

e as pálpebras pesadas se me mantêm abertas

na treva que por tudo aos cegos ver é dado.

Só que desta minh’alma a vista imaginária

me traz a tua imagem aos olhos sem visão

como jóia suspensa da noite tumultuária

tornando cintilante o rosto à escuridão.

      Assim, de dia ao corpo, assim de noite à mente,

      por ti e por mim mesmo, a paz não se consente.

 

(in «50 Sonetos de Shakespeare» - Tradução, Introdução e Notas de Vasco Graça Moura - Editorial Presença, 2ª. edição, 1987)

 

publicado por flordocardo às 19:34
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21
Mar 13

 

*   *

 

 

POESIA

 

 

A poesia,

com suas ideias quentes e teimosas,

seus braços quentes e teimosos, mesmo quando rápidos e frios,

é uma doença

que dissolve e rói o sangue.

 

É uma doença

pelo poder com que absorve o pensamento,

as sensações, o olhar, o peito,

pela incrustações com que se estende

a tudo o que rodeia o nosso corpo…

pelo egoísmo com que tece a nossa vida…

 

É uma doença…

apesar do seu jeito de enlaçar

com laços de nós próprios e não dela…

 

Mas antes a poesia ser doença

que o poema ser doença e não poesia.

 

(20/2/39)

 

 

                                             Jorge de Sena (1919-1978)

 

(do livro «Post-scriptum II - 2º. Volume» - recolha, transcrição e notas de Mécia de Sena, co-edição Moraes Editores/Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Maio/1985)

publicado por flordocardo às 13:13
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20
Mar 13

 

 

publicado por flordocardo às 18:12
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*   *

 

anestesia

(«…pão-de-ló molhado em malvasia» - cesário verde)

 

o senhor gaspar dá anestesia.

faz lembrar…

como cesário diria

«…pão-de-ló molhado em malvasia»

 

(de uma sequência ja concluída, intitulada Vestígios dos últimos crimes)

 

 

publicado por flordocardo às 17:51

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