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Nov 09

 

Casualmente, como a maior parte das vezes, um poema de Eugénio de Andrade para todos vós, com votos de bom fim-de-semana!

 

*  *

Procuro-te

 

 

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.


(in «As Palavras Interditas»)

 

publicado por flordocardo às 16:16
tags:

Lindo :)

Porém, a mim não precisas de procurar. Tens-me.
Melra a 6 de Novembro de 2009 às 16:59

Procuras o que já achaste e tuas mãos não alcançaram e por isso (a)guardas ou procuras o que nunca encontraste?
Ana a 13 de Julho de 2010 às 13:49

Ana: ando há largos minutos a tentar responder ao teu comentário e não consigo; ainda por cima não é fácil explicar-te a razão da coisa ser assim. A coisa mais simples que se me oferece dizer é que isto me transporta a momentos que para mim são hoje ainda dolorosos (apesar de, obviamente, o poema não ser meu). Agradeço o teu interesse, o teu vasculhar no passado deste meu blogue; acredita que agradeço isso do fundo do coração. Todavia, haverá sempre coisas a que não te conseguirei dar resposta (e outras às quais não as quererei dar). Entendes? Confio que vais entender.
Bjitos! *

Pois com certeza que entendo- Lamento ter mexido nalguma ferida; não foi com certeza intencional, já que o poema não foi escrito por ti e o tens aqui (ex)posto para que o leiam, de maneira que nesse sentido abres espaço para que algo do género aconteça.

Agora aquela parte de não teres resposta e/ou não quereres responder era completamente desnecessária pois essas possibilidades são mais do que admissíveis, à partida. Essas possibilidades têm que estar no horizonte de quem faz uma pergunta e se não estão, quem pergunta arrisca-se à desilusão. Sugiro que para a próxima dês esse alerta a quem te demonstrar que não entende essas coisas... das respostas.
(Nem eras obrigado a responder, de todo...)

Bjinho*
Ana a 13 de Julho de 2010 às 17:02

Tens razão e também acho que entendes-te.
Bjitos e continua a passar sempre! *
(PS - acresce que, em boa verdade, eu hoje também não estou nos meus melhores dias; toca a todos...)

Que não estejas nos teus melhores dias é humano e normal... Eu compreendo.
O "toca a todos" já todos o sabem, pois todos já foram - mais ou menos - tocados pelas flutuações emocionais, com ou sem aparente motivo.

LOL

Vai dormir mas é rapaz, que o teu mal é sono.
Abraço grande!
Ana a 13 de Julho de 2010 às 17:30

Talvez, talvez...
Abraço grande! * :-)
flordocardo a 20 de Julho de 2010 às 12:53

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