31
Mar 14

 

*   *

 

O CEGO E A GUITARRA
 

O ruído vário da rua  
Passa alto por mim que sigo.  
Vejo: cada coisa é sua  
Oiço: cada som é consigo.
Sou como a praia a que invade  
Um mar que torna a descer.  
Ah, nisto tudo a verdade...  
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.  
Não, não ajusto nada  
Ao meu conceito perdido  
Como uma flor na estrada.
 
Cheguei à janela  
Porque ouvi cantar.  
É um cego e a guitarra  
Que estão a chorar.
 
Ambos fazem pena,  
São uma coisa só  
Que anda pelo mundo  
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego  
Cantando na estrada,  
A estrada é maior  
E não peço nada.
 
                 Fernando Pessoa
 
publicado por flordocardo às 14:59
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24
Mar 14

 

*

 

(Por vezes chega um rumor que traz consigo o que podia ser)

 

 

Por vezes chega um rumor que traz consigo o que podia ser

um mistério. O que esperamos torna-se igual ao que se escuta.

Uma voz é sempre devagar que se aproxima para recebermos

uma maior tranquilidade. Compreendemo-la porque vinha segredar

qualquer palavra que se tinha esquecido. Sem pressa os olhos

fecham-se. Alguém há-de passar a mão sobre o nosso ombro.

 

 

                                                               Fernando Guimarães (n. 1928)

 

(dolivro «Os caminhos habitados» - Edições Afrontamento, Setembro/2013)

 

 

- O anterior poema deste autor aqui exposto encontra-se incorrecto, pois não está dividido em estrofes e falta-lhe um verso. As minhas desculpas, mas até agora

não consegui resolver o problema de o voltar a editar. -

 

publicado por flordocardo às 17:42
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25
Fev 14

 

*   *   *

 

(O   fogo que na branca cera ardia)

 

O fogo que na branda cera ardia,

Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo,

Se acendeu de outro fogo do desejo,

Por alcançar a luz que vence o dia.

 

Como de dous ardores se incendia,

Da grande impaciência fez despejo,

E, remetendo com furor sobejo,

Vos foi beijar na parte onde se via.

 

Ditosa aquela flama, que se atreve

A apagar seus ardores e tormentos

Na vista de que o mundo tremer deve!

 

Namoram-se, Senhora, os Elementos

De vós, e queima o fogo aquela neve

Que queima corações e pensamentos.

  

 

                                  Luís de Camões

 

publicado por flordocardo às 18:06
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05
Fev 14

 

*  *  *

 

(Com a vara calculei a distância entre os dias)

Com a vara calculei a distância entre os dias
A vara, pensei, vai florir
Posso incliná-la para uma criança a colher 

 


                                                           Daniel Faria (1971-1999)

(do livro «Dos Líquidos» - Fundação Manuel Leão, Porto/2000)

publicado por flordocardo às 22:34
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03
Fev 14

 

*   *

 

Mi Buenos Aires querido

Sentado na borda de uma cadeira sem tampo,
enjoado, doente, vivo por pouco,
escrevo versos previamente chorados
pela cidade onde nasci.
Tenho de segurá-los, também aqui
nasceram doces filhos meus
que me adoçam belamente no meio de tanto castigo.
É preciso aprender a resistir.

Não a partir nem a ficar,
mas a resistir,
embora seja seguro
que hão-de vir mais penas e olvido.

 

 

                               Juan Gelman (n. Argentina, 1930-2014)

(in «No avesso do mundo»)

 

publicado por flordocardo às 01:01
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31
Jan 14

 

*   *   * 

 

(Não sei quantos de nós estaremos vivos)



Não sei quantos de nós estaremos vivos
No dia em que estes campos
Voltarem a estar verdes;

Mais do que de esperança,
Trata-se da sobrevivência
Da nossa vontade. Do nosso
Sentido de oportunidade

Falaremos depois,
Quando os frutos das árvores
Puderem cair

Sem que os cuidados
Exigidos pela necessidade
Ou pelo excesso de avidez
Lhes extingam o brilho.

                               

 

                              Rui Almeida (n. 1972)

 

(do livro «Leis da separação» - Medula, 2013)

 

publicado por flordocardo às 01:08
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16
Jan 14

 

 

*   *

 

CANÇÃO

 

Primeiro, a viagem esburacando-se

Por ruas mais e mais estreitas

Num autocarro fumegante

Até essa casa de subúrbio;

Depois, à chegada, tu,

Luminosa, sorrindo à porta,

Envolta num veludo de perfume,

Cascata de caracóis castanhos -

Tudo o que sobrevive do teu nome.

Na sala, à nossa volta, absorvendo tudo,

O âmbar de uma canção,

Precisamente esta que adolesce a noite

Tantos anos depois,

 

A canção que ainda és e és apenas.

 

 

                           Nuno Rocha Morais (1979-2008)

 

(do livro «Últimos Poemas» - Quasi Edições, Maio/2009)

 

publicado por flordocardo às 16:40
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09
Jan 14

 

 

*   *   *

 

POEMA QUASE EPITÁFIO

 

 

Violentamente só

desfeito em louco

- nem um gato lunar

te arranha um pouco

 

Morreram-te na família

irmãos mais velhos

Restam retratos de vidro

e espelhos

 

Entre as fêmeas bendita

não te quis

As outras mataste

(nem há sangue que te baste)

 

O chão do teu país

deu-te água e uma raiz

muitas pedras mas prisões

 

- Senhor demónio dos sós

Quando ele morrer

onde o pões?

 

  

                              Luiza Neto Jorge (1939-1989)

 

(do livro «Os sítios sitiados» - Ed. Plátano, 1973)

 

publicado por flordocardo às 03:28
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03
Jan 14

 

 

 *   *

 

Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

 

 

                                                     Vinicius de Moraes

 

publicado por flordocardo às 20:37
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27
Dez 13

 

*   *

 

A VIDA: ÚLTIMAS TEIMOSIAS

 

À carne são permitidos todos os desastres.

Esta oliveira segura ainda

os próprios intestinos com as mãos. Nada

veio de súbito preveni-la do fim.

Mas não há noites totais. Na mais escura

o peixe do fundo do rio vem até à superfície

fazer sinais com o seu semáforo. Penso

no sorriso da deusa ausente acaso do Olimpo

quando o monje veio procurá-la. Uma deusa

de seios tão firmes que neles se poderia partir

um martelo de bronze. E o Olimpo ensopado pela urina

doutros poetas e doutros monjes mesmo assim de bexigas cheias.

Tu vês? A vida insiste em excesso para que sobrevivamos:

emprenhar deusas! Uma luz intensamente

brilha. Sim! Brilha! Brilha! É uma oliveira

teimando em dar azeite até ao desastre.

 

 

                                                 Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999)

 

(do livro «A Flor Evaporada» -  D. Quixote, Lisboa/1984)

 

publicado por flordocardo às 02:11
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