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Jun 10

 

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Neste 10 de Junho, confesso que aguardava com expectativa o discurso de António Barreto e não tanto o do Presidente da República. Na qualidade de Presidente da Comissão das Comemorações do Dia de Portugal e sendo António Barreto a pessoa inteligente que é, esperava eu que o mesmo falasse do Portugal de hoje e dos portugueses hoje; porventura de Camões. Mas não. Falou (polemicamente, quanto a mim) dos soldados, dos combatentes, dos veteranos. E só disso. Fiquei basbaque. Este foi um discurso bem longe do proferido no ano passado por este cidadão, nesta mesma data – embora noutra qualidade, como se sabe (e as palavras de então foram bem interessantes).

Assim, este 10 de Junho acabou por ter uma faceta completamente inédita, inaugurando provavelmente uma nova forma de encarar e assinalar esta data. Será,  esta a fórmula adequada à crise actual, dirão alguns (virá aí a guerra?). Mas uma fórmula onde a capacidade de reflexão global sobre Portugal e o mundo se encontra ausente não me parece ser a adequada nem, muito menos ainda, a necessária aos tempos que correm. Nem as palavras de Cavaco Silva cumpriram minimamente tal desiderato.

Na situação presente, aliás, estou em crer que um país que, nas cerimónias do seu dia nacional, se confina a falar dos seus ex-combatentes (para animar os actuais?...) e dos «sacrifícios» que necessitam ser feitos (pelos do costume...) é um país à beira de deixar de o ser. Um país, contudo, revelador também de uma classe dominante que já nada nos (e lhe) tem a dar - o que constitui um facto de preciosa utilidade prática.

Por isso dei por mim a recordar outros discursos. Deixo-vos aqui extractos de um deles: o de Jorge de Sena, na Guarda, em 1977. Deu brado na altura. Continua a ser um dos mais instrutivos, remetendo para um cantinho obscuro os agora proferidos em Faro (cidade que não tem culpa nenhuma da coisa, como é evidente).

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«(…) Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a inquisição e a censura se instituíam todas poderosas; se o condenarem por isso, condenamo-nos nós todos os que, escrevendo ou não escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. Isto é, condenamos a nossa ideia de resistência que, moderadamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer, e corajosamente praticar. E sejam quais forem as vossas ideias e vossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo de orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa História em que esse orgulho se viu deprimido e abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Mas o restituir a quem o podia ler e o podia sentir mais fundamente um pouco de confiança nas horas difíceis é um acto de caridade, essa virtude que não só é cristã porque é, desde antes do cristianismo, a própria essência da civilização – a solidariedade humana quando a dor nos fere. E o ter sido usado, manipulado e treslido como Camões o foi, ou denegrido como também foi desde a publicação do seu poema, é um dos preços que a grandeza paga neste mundo. Camões e a sua obra têm pago esse preço como todos os outros.»

 

«(…) O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência, e de liberdade, disso ele falou, e isso ele sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, o desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada, como ele a queria e não como uma instituição, e a dúvida do predestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) todos vós aprendereis a conhecer melhor quem sois e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele, é renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. É esquecermo-nos que Portugal, como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida.»

 

(discurso inserto no livro «Camões e a identidade nacional» - IN-CM, Maio/1983)

publicado por flordocardo às 18:54

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