13
Mai 09

 

Estou limitado de tempo. Muito. E ainda não digeri por completo o debate a 13 do passado dia 11, na RTP 1, sobre o qual me tinha mais ou menos comprometido a escrever qualquer coisa. Talvez o faça amanhã.

 

Hoje (apesar de muitos temas se encontarem no ar e mesmo a acenarem-me para que deles fale), limitei-me a responder a alguns dos comentários feitos no blogue. Após o que vos deixo mais um poema. Um poema para lerem esta noite.

 

 ATRAVÉS DA MEMÓRIA

(
a Jorge de Sena)

                                              Apenas sei que o Verão em mim cantou
                                                         Um breve tempo, e já não canta mais.

                                                                           Edna St. Vincent Millay


Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.

A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
de uma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem de um espelho,
com a auréola de uma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.

Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.

Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência,
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.


essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mão suaves.

Mas nunca
ele cantara assim.

ANTÓNIO RAMOS ROSA

N. do A.: [Os versos da epígrafe] são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte» de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema Através da Memória foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, e também extraída da referida tradução.
 
(Poema extraído do livro «Viagem Através De Uma Nebulosa», 1960)

 

publicado por flordocardo às 20:12
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