23
Dez 10

 

*

A PRETO E BRANCO

    Uma mulher encosta-se a um muro, encosta-se à memória. Veste de uma maneira simples, uma blusa, uma saia cobrindo os joelhos, talvez uns tamancos. Tem ainda, amarrado à cabeça, um lenço negro, negros aliás e brancos todos os tons em que se veste, negros os tamancos, um casaco de lã sobre a blusa, negras ainda algumas das riscas da saia, brancas as outras, como a blusa. Encosta-se ao muro aonde cola as costas, os ombros e depois uma das faces, assim é mais fácil ver-lhe o rosto. As mãos encostá-las-ia também se não segurasse um lenço branco. Aperta-o entre os dedos, fá-lo passar entre eles, uma pequena serpente. Ou então amarrota-o, faz das palmas das mãos uma concha onde o esconde, o lenço assim desaparece totalmente, apenas as mãos se vêem projectadas para a frente, dir-se-ia que rezam. Depois sempre ocultando o lenço, levam-no ao rosto novamente de perfil, tudo a preto e branco ainda, ou é o rosto que desce até às mãos, mergulha no lenço, talvez este e a língua se procurem, uma língua pelo lenço adiante, uma língua é provável que vermelha, não, é tudo ainda muito a preto e branco, é tudo ainda demasiado a preto e branco para permitir um pormenor vermelho.

                                                                            Luís Miguel Nava (1957-1995)

 

(do livro «Películas»Moraes Editores, Maio/1979).

publicado por flordocardo às 10:51
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22
Dez 10

 

(Porque há muito tempo que não ouvia este senhor...)

 

publicado por flordocardo às 02:00
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*   *   *

 

Experimentem ir até aqui e depois digam qualquer coisa, se tal acharem por bem:

 

www.bubok.pt

 

publicado por flordocardo às 01:58
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21
Dez 10

 

*    *

Remexendo ainda no meu velho computador, deparo com este poema. Constato depois que o mesmo viu pela primeira vez a luz do dia no jornal «Luta Popular», edição de Julho de 2008. Continuo a achá-lo muito actual e por isso aqui o deixo, ainda que em 2ª. mão.

 

sangue.jpg

 

  

 

 

SINAL

 

 

 

 

Em contraste com as negras águas

que se acumulam nas ruas

o sangue tornou-se invisível

sem cotação no mercado

do «mercado livre»

 

O sangue foi tapado

silenciado

homogeneizado

pasteurizado

reutilizado em cubos de gelo

para cocktails com powerpoint

 

O sangue tornou-se

uma nódoa imprevista

e lavada

raspada

tornada a lavar

posta ao ar

para que o sol a seque

 

O sangue não é nada

para além de uma réstia na memória

breve menção no dicionário de uma língua

em coma - e que ainda assim se põe à venda

 

O sangue ficou à margem

televisivo

cinematográfico

como um veludo antigo

 

O sangue não matará

A violência do ar roeu-lhe tudo

 

Mas no quinhão imperceptível que lhe resta

sob o empedrado

lá no fundo

o sangue brilha e tece a conjura

o retorno

 

(Lisboa, Abril/Maio de 2008)

                 

publicado por flordocardo às 00:06

 

*    *

 

«A beleza de um poema não está na capacidade que ele tem de deixar o leitor contente. A poesia é sempre uma surpresa, capaz de nos tirar a respiração por alguns momentos. Ela deve permanecer em nossas vidas como o pôr-do-sol: algo milagroso e natural ao mesmo tempo.» 

                                                                                                                                                                                                                                                               John Keats 
publicado por flordocardo às 00:03
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20
Dez 10

 

*   *   *

 

TROVAS PARA SEREM VENDIDAS NA TRAVESSA DE S. DOMINGOS

 

O repórter fotográfico
foi ver a fuzilaria.
Ganhou o prémio do ano
da melhor fotografia.

 

Notícias não confirmadas
informam, de origens várias,
que as tropas revolucionárias
recentemente cercadas
acabam de ser esmagadas
com perdas extraordinárias.

 

Na redacção do jornal
corre tudo em sobressalto.
A hora é sensacional.
Toda a gente dormiu mal,
gesticula e fala alto.

 

Passageiros recém-chegados
do lugar da revolução
viram dúzias de soldados
prontos a ser fuzilados
e muitos já arrumados
e amontoados no chão.

 

Agora que se anuncia
já estar regulado o tráfico,
inda mal rompera o dia
foi ver a fuzilaria
o repórter fotográfico.

 

Vá lá, vá lá, felizmente,
felizmente que ao chegar
inda havia muita gente
que estava por fuzilar.

 

Numa ridente campina
de papoilas salpicada,
um sol de lâmina fina
cortava a densa neblina
da metralha disparada.

 

Berrando como vitelos
a malta dos condenados
avançava aos atropelos
e arrepanhava os cabelos
com gestos alucinados.

 

O repórter já suava,
não tinha mãos a medir;
ora a máquina carregava,
apontava e disparava,
ora no chão se agachava,
pulava e gesticulava
com afanosa presteza.

 

Há empregos, com franqueza,
nem haviam de existir.
A um tipo de mãos nojentas
que aos berros sobressaía
gritando frases violentas,
focou-o mesmo nas ventas
no momento em que caía.

 

Mas o melhor não foi isso.
O melhor foi uma velhota
que pôs tudo em rebuliço.
Rápida como um rastilho,
em convulsivos soluços,
foi estatelar-se de bruços
sobre o corpo do seu filho.

 

«Meu menino, meu menino!
Valha-me a Virgem Maria!
Que vai ser o meu destino
sem a tua companhia?!

 

Mataram-me o meu menino!
Filho do meu coração!
Que vai ser o meu destino
sem a tua protecção?!»

 

Nunca uma cena de horror,
Uma tragédia tão viva,
tão grande e expressiva dor,
alguém teve ao seu dispor
defronte duma objectiva.

 

Era uma face crispada,
um olhar perdido e louco,
uma boca de xarroco
em lágrimas ensopada.

 

Foi uma sorte, realmente.
Um desses casos notáveis,
bestiais e formidáveis
que acontecem raramente.

 

Aquelas faces crispadas
correram pelo mundo inteiro
nas revistas ilustradas,
em tiragens esgotadas
que deram muito dinheiro.

 

Com aquele sentido humano
da justiça e da harmonia,
o repórter todo ufano,
ganhou o prémio do ano
da melhor fotografia.

 

                                  António Gedeão (1906-1997) 

       

(do livro «Máquina de fogo» - 1961)

 

publicado por flordocardo às 16:38
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[billy+bragg+talking....jpg] 

 

 

 

(O homem faz anos hoje)

 

publicado por flordocardo às 12:10
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19
Dez 10
publicado por flordocardo às 20:48
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*

 

«A inspiração existe mas tem de encontrar-te a trabalhar.»
                                                                                      Pablo Picasso

publicado por flordocardo às 20:35
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publicado por flordocardo às 00:09
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