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Mai 11

 

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(Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto)

 

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto

e a luz é fraca e treme e eu tenho medo

das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas

da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

 

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava

no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha

a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi

de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs

com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje

te mordem os gestos e as palavras.

 

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai

demorar-se a regressar. Há tempo para uma história

que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,

serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,

como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono

se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

 

                                                               Maria do Rosário Pedreira (n. 1959)

(do livro «A Casa e o Cheiro dos Livros» - Gótica, 1996)

 

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