03
Dez 11

 

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O assunto mais importante do mundo pode ser simplificado até ao ponto em que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. Isso é - ou deveria ser - a mais elevada forma de arte.

 

Charles Chaplin

publicado por flordocardo às 02:24
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publicado por flordocardo às 01:38
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02
Dez 11

 

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Só agora descobri este artigo publicado em Outubro na revista «Visão», mas o mesmo terá hoje mais actualidade do que nunca. Leiam, se faz favor, isto que tomo a liberdade de transcrever.

 

 

 

            O Quarto Reich          

            A guerra pode ter já recomeçado         

Filipe Luís
8:55 Quarta feira,  5 de Out de 2011                 
 

A inflamada declaração de Angela Merkel, numa entrevista à televisão pública  alemã, ARD, em que sugere a perda de soberania para os países incumpridores das  metas orçamentais, bem como a revelação sobre o papel da célebre família alemã  Quandt, durante o Terceiro Reich, ligam-se, como peças de puzzle, a uma cadeia  de coincidências inquietantes. Gunther Quandt foi, nos anos 40, o patriarca de  uma família que ainda hoje controla a BMW e gere uma fortuna de 20 mil milhões  de euros. Compaghon de route de Hitler, filiado no partido Nazi, relacionado com  Joseph Goebbels, Quandt beneficiou, como quase todos os barões da pesada  indústria alemã, de mão-de-obra escrava, recrutada entre judeus, polacos,  checos, húngaros, russos, mas também franceses e belgas. Depois da guerra, um  seu filho, Herbert, também envolvido com Hitler, salvou a BMW da insolvência,  tornando-se, no final dos anos 50, uma das grandes figuras do milagre económico  alemão. Esta investigação, que iliba a BMW mas não o antigo chefe do clã Quandt,  pode ser a abertura de uma verdadeira caixa de Pandora. Afinal, o poderio da  indústria alemã assentaria diretamente num sistema bélico baseado na  escravatura, na pilhagem e no massacre. E os seus beneficiários nunca teriam  sido punidos, nem os seus empórios desmantelados.

As discussões do pós-Guerra, incluíam, para alguns estrategas, a  desindustrialização pura e simples da Alemanha - algo que o Plano Marshal, as  necessidades da Guerra Fria e os fundadores da Comunidade Económica Europeia  evitaram. Assim, o poderio teutónico manteve-se como motor da Europa. Gunther e  Herbert Quandt foram protagonistas deste desfecho.

Esta história invoca um romance recente de um jornalista e escritor de origem  britânica, a viver na Hungria, intitulado "O protocolo Budapeste". No livro,  Adam Lebor ficciona sobre um suposto diretório alemão, que teria como missão  restabelecer o domínio da Alemanha, não pela força das armas, mas da economia.  Um dos passos fulcrais seria o da criação de uma moeda única que obrigasse os  países a submeterem-se a uma ditadura orçamental imposta desde Berlim. O outro,  descapitalizar os Estados periféricos, provocar o seu endividamento,  atacando-os, depois, pela asfixia dos juros da dívida, de forma a passar a  controlar, por preços de saldo, empresas estatais estratégicas, através de  privatizações forçadas. Para isso, o diretório faria eleger governos dóceis em  toda a Europa, munindo-se de políticos-fantoche em cargos decisivos em Bruxelas - presidência da Comissão e, finalmente, presidência da União  Europeia.

Adam Lebor não é português - nem a narração da sua trama se desenvolve cá.  Mas os pontos de contacto com a realidade, tão eloquentemente avivada pelas  declarações de Merkel, são irresistíveis. Aliás, "não é muito inteligente  imaginar que numa casa tão apinhada como a Europa, uma comunidade de povos seja  capaz de manter diferentes sistemas legais e diferentes conceitos legais durante  muito tempo." Quem disse isto foi Adolf Hitler. A pax germânica seria o destino  de "um continente em paz, livre das suas barreiras e obstáculos, onde a história  e a geografia se encontram, finalmente, reconciliadas" - palavras de Giscard  d'Estaing, redator do projeto de Constituição europeia.

É um facto que a Europa aparenta estar em paz. Mas a guerra pode ter já  recomeçado.

 

publicado por flordocardo às 22:23
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Já se encontra nas livrarias o Dicionário Luís de Camões, o primeiro dedicado à vida e obra do poeta, elaborado por especialistas nacionais e estrangeiros sob coordenação de Vítor Aguiar e Silva, numa edição da Caminho.

Este Dicionário, considerado o grande acontecimento editorial de 2011, fornece aos leitores informação rigorosa e actualizada sobre a biografia, a obra lírica, épica, dramatúrgica e epistolar de Camões, a respectiva contextualização histórico-literária, os seus problemas filológicos e a influência e a crítica camonianas nos diversos períodos da literatura portuguesa.

O primeiro Dicionário dedicado ao poeta quinhentista inclui ainda informação sobre a recepção da sua obra nas principais literaturas mundiais, da espanhola à brasileira e norte-americana.

 

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publicado por flordocardo às 19:22
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publicado por flordocardo às 01:04
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MUDANÇAS DE NOME

 

Aos amantes das belas letras
faço chegar meus melhores desejos
vou mudar os nomes de algumas coisas

 

Minha posição é esta:

o poeta não cumpre sua palavra
se não muda os nomes das coisas.

 

Por que razão o sol há-de continuar a chamar-se sol?
Peço que se chame Micifuz
o das botas de quarenta léguas!

 

Meus sapatos parecem ataúdes?
Saibam que de agora em diante
os sapatos se chamam ataúdes.

 

Tudo bem, a noite é longa
todo o poeta que tenha auto-estima
deve ter o seu próprio dicionário
e antes que eu esqueça
o próprio deus deve mudar de nome
que cada um o chame como queira:
este é um problema pessoal.

 

                                               Nicanor Parra (Chile, n. 1914)

 

(do livro «Poemas de salón - 1954-1962» - dado à estampa em 1962)

 

publicado por flordocardo às 01:01
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01
Dez 11

 

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Destino Manifesto

Nas Filipinas
as trabalhadoras das fábricas
de bonecas de moda
recebem um bônus em dinheiro
se se esterilizam. Nas esteiras,
rodam com excesso de velocidade
pedaços de corpos.
Nada a ver com o famoso episódio da tv
quando Lucy e Ethel experimentam
um dia de trabalho, botando chocolates dentro de caixas
numa linha de produção nos Estados Unidos. Elas
enchem suas bocas com uma boa parte
dos doces que vêm velozmente, dão risadas
de baba marrom quando são despedidas porque
realmente não tem importância –
Ricky e Fred têm bons empregos.
Para provar que são eles mesmos os que devem trabalhar,
os garotos fazem uma bagunça na cozinha

da Lucy, uma panela de arroz explodindo
como um vulcão branco. As mulheres
nas Filipinas e noutros lugares ponderam
o big business, os benefícios de descontinuar
a própria linhagem. Nos seus sonhos
estas mulheres embalam úteros de Toys R Us
enquanto uma Barbie estéril, seu cabelo preso
sob um capacete de Lucite, finca a bandeira da Mattel
numa lua que pouco convence.

                                                             Denise Duhamel (EUA, n.1961)

 

(do livro «KINKY» - tradução da brasileira Miriam Adelman)

 

publicado por flordocardo às 22:53
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publicado por flordocardo às 17:46
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Agora que o OE/2012 foi aprovado, este poema parece-me mais do que oportuno surgir aqui. 

 

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Poema de agradecimento à corja
 
   
Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar. 

                                              Joaquim Pessoa (n. 1948) 

publicado por flordocardo às 00:21
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