21
Out 12

 

*   *   *

 

 

       Sampaio e o consenso alargado

Se há coisa que Sampaio não consegue é estar calado, sobretudo quando toda a gente fala e, para mais, se tudo fala ao mesmo tempo, como sucede nos dias que correm. Foi jeito que lhe ficou das RIAs, reuniões inter-associações académicas dos seus tempos de estudante universitário, nos longínquos e saudosos anos sessenta.

Nessa época, o Cenoura, quando estava tudo à pêra numa discussão ultra-frenética, intervinha para propor um consenso alargado, com o qual consenso pretendia muitas vezes unir o Cabo da Roca ao Cabo Espichel, ou seja, a esquerda e a direita numa única plataforma de entendimento. Claro está que também nessa época Sampaio nunca teve grande sucesso.

Hoje, vivemos também em Portugal uma situação política explosiva, para a qual muito contribuiu o magistério do próprio Sampaio, nos dois mandatos que cumpriu numa década em Belém, como presidente da república.

Sábado passado, Sampaio veio à Sic-Notícias, onde lhe facultaram uma longuíssima entrevista, para que o homem conseguisse dar vazão ao seu incontrolado desejo de falar, quando todos falam e falam ao mesmo tempo, sobre o genocídio fiscal do governo PSD/CDS e a queda mais ou menos iminente desse executivo de traição nacional.

Diga-se, em abono da verdade, que, na primeira parte da entrevista, Sampaio fez ao governo Coelho/Portas e à política imposta pela Tróica um dos mais violentos ataques que alguém até hoje lhes fez nos órgãos de comunicação social controlados pelos capitalistas, pelo que, nessa parte, cumpre-nos tirar o chapéu.

Nunca ninguém no PS – nem Soares! -, fez um ataque tão violento como o que fez Sampaio à política de austeridade do governo PSD/CDS. Deixo-vos aqui, mais na esperança de que isso possa servir de exemplo a Seguro, se ele nos lesse, do que de reflexão aos meus dilectos leitores, duas das catilinárias do segundo civil que foi presidente da República Portuguesa:

Já toda a gente percebeu que isto não dá tempo possível, que a austeridade rebenta com o País, rebenta com os portugueses, rebenta com a sua esperança e rebenta com os direitos e pode rebentar com a própria democracia, e isso temos de evitar

E, continuando, disse mais o ex-Chefe do Estado.

O desafio actual – e digo-o com toda a veemência – é perceber que as pessoas também já perceberam que só desta maneira não se vai lá e têm de ser mobilizadas, sob pena de uma explosão social incontrolável

Depois de tanta justíssima indignação e de tão justificada veemência, os telespectadores ficaram todos empolgados à espera, impacientes, da solução do último dos presidentes que usou da chamada bomba atómica presidencial, demitindo o governo Santana Lopes e dissolvendo o parlamento, e de cujas subsequentes eleições legislativas resultou o primeiro governo de Sócrates, o governo que está na base de toda a crise actual.

Que teria Sampaio para nos dizer, a todos nós portugueses?

Depois destas jaculatórias de esquerda, aparece, a preencher toda a pantalha da Sic-Notícias, não Sampaio, não o penúltimo presidente da república no activo, mas o velho Cenoura dos anos sessenta, o tal que se especializou na impossível tarefa de unir o Cabo da Roca e o Cabo Espichel, a propor-nos – o quê? adivinhem lá!, exactamente isso... – um Consenso Alargado.

E um consenso alargado, entre quem? Não obviamente entre a esquerda e a direita – o Cenoura progrediu alguma coisa, entretanto!... – não um consenso de esquerda, não um consenso democrático e patriótico, mas um consenso alargado só entre todos os partidos da direita portuguesa ou, vá lá, do centro direita, se se quiser: o PS, o PSD e o CDS.

Sampaio entende – conforme afirmou na televisão naquela noite tão longa – que, se continuar assim, o governo Coelho/Portas poderia vir a cair: “o executivo pode vir a cair se continuarmos assim; é inevitável”.

E então, para que a tragédia da queda do governo PSD/CDS não aconteça, o velho Cenoura explica como faria, se estivesse hoje sentado em Belém, no lugar do incompetente Cavaco:

Chamava um de cada vez e, depois, os três ao mesmo tempo, - note-se bem estas subtilezas! – - os representantes do PS, do PSD e do CDS, uma vez que infelizmente já se percebeu que o BE e o PCP estão fora deste esquema, e dizia-lhes: ‘meus senhores, ordem nisto, isto não é possível fazer assim”.

E então o velho Cenoura, saído da noite dos tempos, imporia a formação de um governo de consenso alargado: o governo PS/PSD/CDS, ou por eles apoiado.

Isto é, um governo tanto ou mais à direita do que o governo que já está em vias de ser deitado abaixo pelo poderoso movimento popular de massas... Um governo contra o Povo e contra o País. Um governo contra a esquerda. Um governo servo do Fuhrer Ângela Merkl. Um governo de consenso alargado para pagar disciplinadamente a dívida pública aos bancos germânicos.

Porque não te calas, Cenoura?!


publicado por flordocardo às 23:36

 

 

*   *   *

 

Estrela da Manhã
 

 
Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.
Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.
 
Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece o linho,
a espuma roxa dos vinhos,
incêncio na face jovem.

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressuma-lhe à flor da pele.
 
Vai, belo monstro.
Arranca
as florestas com os teus dentes.
Imprime na areia branca
teus voluntariosos pés incandescentes.
 
Vai

Segue o teu meridiano, esse,
o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
o plano de barro que nunca endurece,
onde a memória da espécie
grava os sonos imortais.
 
Vai
 
Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
Desdobra-te e beija
em ti mesmo a carne sã.


Vai

 

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
«tem que ser».
 
O mar que rola e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
«tem que ser».
 
Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
«Tem que ser».
 
                                António Gedeão (1906-1997)
 
publicado por flordocardo às 23:13
tags:

 

*  *  *

 

«O que é escrito sem esforço em geral é lido sem prazer.»

 Samuel Johnson

publicado por flordocardo às 23:12
tags:

Outubro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
12

16
18

24
27

30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO