06
Fev 13

 

 

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NESTA FRIA NOITE DE CÉU LIMPO

(poema em “caixa baixa”)

 

gostava de ter comigo um termómetro

um relógio qualquer

uma máquina fotográfica

para medir o frio desta noite fria

e suas hastes de luz

 

apenas sei de um homem que vagueia pela noite

meio curvado com sapatos e sem meias

de outro que fala sozinho

e adormece agarrado a um livro velho

e de outro ainda a quem arranjaram casa

e lança garrafas vazias pela janela

 

que vivo e morro e vivo morrerei

e que ainda assim a erva cresce sob as estrelas

sob o manto solene da noite silenciosa

e da lua que não vejo por agora

eis o que sei também

 

daqui a nada virá o varredor

pelo menos à rua principal

desafiando sem alarido o termómetro e o relógio

fotografando beatas e talões com o olhar

duvidando se faz parte do estado social

e se tem pernas e braços para tanto ordenado ao fim do mês

enquanto as horas humedecem a roupa e os ossos

e os ulriches dormem ainda e sempre

com a pistola debaixo da almofada

 

vou deitar-me

tenho que me deitar para medir com os ossos o frio

o frio desta noite fria

ilusoriamente imóvel

 

Mais logo o dia estará claro

provavelmente cheio de um radiante sol de inverno

e os jornais falarão de crise

de recuperação de mercados de mourinhos

de torrenciais paixões de deslealdades

de inóspitas traições caseiras

e mais uma noite

esta noite terá passado

 

Sem outdoors nem máscaras

roem-se os nervos e a náusea

e afiam-se facas rombas
versos impuros

nesta fria noite de céu limpo

 

(Parede, 04.02.2013)

 

publicado por flordocardo às 01:02

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