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- 3 Poemas do livro «A Terceira Miséria», de Hélia Correia (n. 1949) -
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23. (A terceira miséria é esta, a de hoje)
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
24. (O que não sabe)
O que não sabe
De cor poemas como os que salvaram
Literalmente os soldados que, vencidos
E condenados a morrer à míngua
Ou a serem vendidos como escravos -
Atenienses contra Siracusa -,
Deram aos inimigos, mais valioso
Do que ouro podia ser, versos de Eurípides,
E em troca disso foram libertados.
33. (De que armas disporemos, senão destas)
De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.
(Edição da Relógio D’ Água Editores, Fevereiro de 2012)
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Não falemos já do que se passa no Iraque, no Afeganistão, na Síria, no Mali, na Palestina, no Egipto, na Península coreana, no Mar da China…, países e regiões onde a guerra se processa, ora de forma aberta e declarada, ora de forma encapotada… Nem falemos das alterações estratégicas militares que os EUA estão a levar a cabo, prestando maior atenção à região do Pacífico…
Falemos por agora de um outro tipo de guerra.
Falemos dos BCRICS: China, Rússia, Brasil, África do Sul e Índia. Os BRICS resolveram esta semana criar um banco. Um banco, previsivelmente poderoso, destinado a promover o “desenvolvimento sustentável” dos países em vias de desenvolvimento. Na mesma ocasião, a China e o Brasil assinaram um acordo para a troca de divisas, no intuito expresso de se precaverem das flutuações do dólar e da presente turbulência financeira internacional.
Falemos das fusões e/ou acordos entre companhias aéreas, o último dos quais acaba de envolver a “Qantas” e a “Emirates” e que vai proporcionar um vasto alargamento de rotas a tais companhias.
Falemos da EADS, grupo de aeronáutica e defesa cujos accionistas vão, no próximo dia 2 de Abril, aprovar que a Alemanha, a França e a Espanha, países fundadores do projecto, não devem poder monopolizar o grupo (só podem passar a deter entre 12 e 4 por cento das acções).
E, é claro, podemos falar da Europa; da Europa do euro, da Europa a caminho do precipício - como agora se tornou absolutamente cristalino com o extraordinário caso do “resgate” a Chipre.
Podemos e devemos falar de uma UE onde a famigerada necessidade de austeridade já está a abraçar a França e a própria Inglaterra.
Podemos e devemos falar de uma UE onde um ministro alemão das finanças acaba de acusar os PIGS de serem «invejosos»…
Pois é… Inequivocamente, estamos em estado de guerra mais ou menos generalizado. E a guerra tem sempre duas faces: a face económica e a face das armas. Tal qual a revolução, não é assim?
Uma coisa eu tenho por certa: ou a revolução impede a guerra, ou a guerra desencadeará a revolução.
(PS - O presidente russo, Vladimir Putin, determinou a realização a partir desta quinta-feira de grandes exercícios militares na região do mar Negro. Putin emitiu ordem para o início dos exercícios quando voltava da cimeira dos BRICS na África do Sul, segundo declarou o seu porta-voz, Dmitry Peskov.)
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«Merkel, tal como Hitler, declarou guerra à Europa para manter o espaço económico vital para a Alemanha.»
E mais adiante: Merkel... «castiga-nos para proteger as suas grandes empresas e bancos e também para ocultar perante o seu eleitorado a vergonha de um modelo que fez com que o nível de pobreza no seu país seja o mais alto das duas últimas décadas, em que 25% dos seus empregados ganhem menos de 9,15 euros por hora...»
De um artigo de opinião publicado no site do "El País" (posteriormente censurado), assinado pelo economista Juan Torres López.
Sem comentários!
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O PS decidiu apresentar uma moção de censura ao governo. Porém, não contente com tão pouca coisa, resolveu escrever também - e antes daquela - uma carta à troika. Para... Para explicar aos amos a razão de ser da moção e reafirmar que está disposto a cumprir os compromissos expressos no memorando assinado com a troika...
O PS do Tozé não dá ponto sem nó...
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XXVII
Exausto da viagem que os membros todos cansa
em busca de repouso ao leito vou depressa,
mas em nova jornada o espírito se lança
a dar labor à mente quando o do corpo cessa,
que em fervente romagem vão até ti, despertas,
estas minhas ideias se longe estou deitado
e as pálpebras pesadas se me mantêm abertas
na treva que por tudo aos cegos ver é dado.
Só que desta minh’alma a vista imaginária
me traz a tua imagem aos olhos sem visão
como jóia suspensa da noite tumultuária
tornando cintilante o rosto à escuridão.
Assim, de dia ao corpo, assim de noite à mente,
por ti e por mim mesmo, a paz não se consente.
(in «50 Sonetos de Shakespeare» - Tradução, Introdução e Notas de Vasco Graça Moura - Editorial Presença, 2ª. edição, 1987)
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POESIA
A poesia,
com suas ideias quentes e teimosas,
seus braços quentes e teimosos, mesmo quando rápidos e frios,
é uma doença
que dissolve e rói o sangue.
É uma doença
pelo poder com que absorve o pensamento,
as sensações, o olhar, o peito,
pela incrustações com que se estende
a tudo o que rodeia o nosso corpo…
pelo egoísmo com que tece a nossa vida…
É uma doença…
apesar do seu jeito de enlaçar
com laços de nós próprios e não dela…
Mas antes a poesia ser doença
que o poema ser doença e não poesia.
(20/2/39)
Jorge de Sena (1919-1978)
(do livro «Post-scriptum II - 2º. Volume» - recolha, transcrição e notas de Mécia de Sena, co-edição Moraes Editores/Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Maio/1985)
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anestesia
(«…pão-de-ló molhado em malvasia» - cesário verde)
o senhor gaspar dá anestesia.
faz lembrar…
como cesário diria
«…pão-de-ló molhado em malvasia»
(de uma sequência ja concluída, intitulada Vestígios dos últimos crimes)