18
Nov 13

 

 

*   *   *

 

Coisas, Pequenas Coisas


Fazer das coisas fracas um poema. 

Uma árvore está quieta, 
murcha, desprezada. 
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos 
e lhe sopra os dedos, 
ela volta a empertigar-se, renovada. 
E tu, que não sabias o segredo, 
perdes a vaidade. 
Fora de ti há o mundo 
e nele há tudo 
que em ti não cabe. 

Homem, até o barro tem poesia! 
Olha as coisas com humildade. 



                                      Fernando Namora (1919-1989)


(in «Mar de Sargaços»)


publicado por flordocardo às 19:05
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17
Nov 13

 

 

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O ex-bloquista e deputado europeu Rui Tavares apresentou ontem, no S. Luiz, perante cerca de 200 pessoas, os seus pontos de vista para a criação de um novo partido - que se pode vir a designar por “LIVRE - Liberdade, Esquerda, Europa e Ecologia”.
E o que revelou Tavares, em síntese?


a) «O nosso lugar é no meio da esquerda.»
b) «Sinto-me bem com muita gente do PS e do BE, da ala mais moderada do BE e da ala mais à esquerda do PS.»


Portanto, estar «no meio da esquerda» é estar entre a «ala mais moderada do BE» e a «ala mais à esquerda do PS».
Em matéria de "ESQUERDA" estou perfeitissimamente esclarecido! 
O homem está CENTRADO e não lhe vão faltar desiludidos nem apoios!!!

Conclusão: já percebi do que é que o LIVRE é livre.


publicado por flordocardo às 02:23

15
Nov 13

 

 

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AS MÃOS

 

Brandamente escrevem dos espasmos do sol.
Envelhecem do pulso ao cérebro, ao calor baço
de um revérbero no eixo dos ventos, usura
das máscaras que, sucessivamente, as transformam

de consciência em cal ou metal obscuro.
E já não é por si que a presença existe ou
subsiste o que separa. Destroem as sementes,
apodrecem como um sopro e não são remanso

na areia ou domadoras de chamas. Igualam-se
à água, para serem raiz do que se cala
e insinuam-se, para sempre, no pó da noite.

Um castelo de pele tomba. Deixam de ser
nomeadas ou nome. Escrevem, brandamente,
do termo da música o luto do silêncio.


                                       Orlando Neves (1935-2005)

 

(do livro «Decomposição - o Corpo»)

 

publicado por flordocardo às 03:30
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14
Nov 13

 

 

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(extraído da edição de hoje do jornal i)

 

Sair do euro para sair da crise

 

 

Sair da zona euro tem custos, mas é bom lembrar que nela permanecer impõe uma perda decisiva, a dos instrumentos de política económica indispensáveis ao desenvolvimento.


A pressão dos mercados financeiros sobre um país crescentemente endividado, a tutela do Tratado Orçamental e a fragilidade da nossa economia não desaparecem com o fim do Memorando. Nem o processo de germanização da zona euro é suspenso. Por outro lado, a federalização da UE está fora de questão, já que a esmagadora maioria dos alemães nem sequer imagina correr o risco de se sujeitar a leis que obriguem o BCE a financiar os estados ou os países excedentários na balança de pagamentos a apoiar os deficitários. Veja-se a crescente perda de confiança dos alemães na política monetária do BCE, apesar dos evidentes riscos de deflação, e a tenaz resistência do governo alemão ao projecto de uma autoridade bancária supranacional com poder para decidir a falência de algum dos seus bancos.

Sair da zona euro tem custos, mas é bom lembrar que nela permanecer impõe uma perda decisiva, a dos instrumentos de política económica indispensáveis ao desenvolvimento. Sair implica uma subida inicial dos preços de bens importados provocada pela desvalorização do novo escudo. Neste contexto, lembro que a subida do preço dos combustíveis seria muito inferior ao da desvalorização já que esta apenas incide sobre o custo da matéria-prima; impostos e taxas representam mais de metade do preço de venda ao público. Quanto aos salários e às pensões, seria possível actualizá-los sem gerar uma espiral inflacionista. Um acordo de Concertação Social seria facilitado pelo clima de confiança gerado pelo lançamento de um programa de criação de milhares de empregos socialmente úteis, envolvendo entidades locais de diferentes sectores e financiado por emissão monetária. Segundo as simulações de Jacques Sapir, o impacto da desvalorização nos preços reduzir-se-ia substancialmente ao fim de dois anos.

Apesar de entretanto já ter saído do país muito dinheiro, chegado o dia seria necessário encerrar os bancos e introduzir o controlo dos movimentos de capitais. Uma estratégia de introdução da nova moeda, de uma só vez, implicaria a conversão imediata dos depósitos bancários em novos escudos no mesmo montante. O mesmo aconteceria às dívidas contraídas ao abrigo da lei nacional. Os preços seriam também os mesmos, em novos escudos. Provisoriamente, as notas e moedas em circulação seriam aceites nos pagamentos como sendo novos escudos. É verdade que os bancos teriam de ser recapitalizados mas isso teria solução imediata e sem custos. O governo criaria um fundo de recapitalização financiado pelo Banco de Portugal (moeda electrónica) que, entrando no capital social dos bancos, os transformaria em bancos públicos. Recentrado no mercado nacional, em devido tempo o sistema bancário teria de ser redimensionado e sujeito a novo enquadramento jurídico.

A dívida externa contraída ao abrigo da legislação nacional ficaria convertida na nova moeda, como prevê o direito internacional. Os casos da EDP e da Petrogal teriam de ser tratados de forma particular, para evitar rupturas. A dívida externa pública que permanecesse em euros seria objecto de uma moratória que reduziria a saída de divisas e forçaria a sua renegociação.

Ponto importante: as pensões e os salários dos funcionários públicos seriam repostos ao nível anterior ao Memorando através de financiamento monetário. Sendo as importações agora muito mais caras, além de administrativamente mais controladas, a economia seria fortemente estimulada por esta medida, reforçando o já referido programa público de criação de empregos.

Finalmente, não há qualquer risco de isolamento do país. A saída de um membro da zona euro, além de precipitar a saída de outros, conduzirá (após alguma turbulência inevitável) a uma UE a várias velocidades. A Alemanha começaria a pagar o preço do seu mercantilismo agressivo, ao mesmo tempo que o crescimento e o emprego regressariam ao Sul da Europa.

Está nas nossas mãos a saída da crise. Lembrando Roosevelt, "a única coisa de que devemos ter medo é do próprio medo".

Estou convencido que a zona euro não tem condições para se manter porque, quer a germanização da Europa dos estados-nação, quer a federalização da Europa, não têm apoio político à vista.

 

Jorge Bateira - Economista


publicado por flordocardo às 11:34

12
Nov 13

 

 

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MORTE POR ENTERRAMENTO

 

Este local não é

Próprio para plantar.

Aqui a terra é

Dura, seca, irritante -

Agulhas de folhas mortas

Arranham.

Fecho os olhos, o pó

Sufoca-me a garganta,

Nunca pensei que a terra

Pudesse ser tão pesada,

Talvez se eu

Levantar um braço

Alguém venha atravessar

Um dia a minha sepultura e,

Como nas noites dos filmes de terror,

Veja uma mão sem vida, uma palma aberta.

Dedos meio enrolados...

E grite.

 

Eu não morri nesse dia -

Outra coisa sucedeu

E ainda permanece

Na sepultura pútrida

Fermentando o conhecimento das trevas.

 

 

                                       Hanan Ashrawi (n. Nablus, Palestina - 1946)

 

(Em Fevereiro de 1988 soldados israelitas enterraram vivos quatro jovens - Isam Shafiq Ishtayyeh, Abdel-Latif Mahmud Ishtayyeh, Muhsin Hamdan e Mustafa Abdel-Majid Hamdan - da aldeia de Salim, perto de Nablus. Depois dos soldados partirem, os aldeões escavaram as sepulturas e conseguiram resgatá-los com vida.)

publicado por flordocardo às 03:45
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11
Nov 13

 

 

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Durão Barroso, esse fervoroso "patriota" que preside à Comissão Europeia, fez há dias mais uma das suas: ameaçou o Tribunal Constitucional português - órgão de soberania do país onde ele próprio nasceu. 

Na mesma sequência "patriótica", eis que a Comissão Europeia, no âmbito do seu «Procedimento por Desequilíbrios Macroeconómicos Excessivos», decidiu dar mais um passo na sua política de institucionalização da desigualdade de tratamento entre os Estados da UE (e sobretudo entre países devedores e países credores).

Na verdade, para a Comissão Europeia um país que tenha um défice externo superior a 4 por cento tem de pôr em prática um conjunto de políticas para o corrigir, sob pena de ser alvo de pesadas sanções financeiras. Ao invés, os países excedentários (dado os excedentes também prejudicarem o equilíbrio macro-económico da UE) são objecto de outra atitude: são unicamente exortados a corrigir a situação sempre que os seus excedentes sejam superiores a 6 por cento, mas não são alvo de qualquer sanção financeira - nem pesada nem leve. 

A Alemanha continua a acumular excedentes como se sabe. Por isso, mais palavras para quê?...

É de prestar vassalagem a esta gentalha? NÃO! Nem a esta nem a qualquer outra!!!


publicado por flordocardo às 02:47

09
Nov 13

 

 

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(Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa)

 

Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se - ou nem isso
Sobrevive-se - ou nem tanto
Morre-se - sempre
Muito

 

                                            Rui Caeiro (n. 1943)


(do livro «Sobre a nossa morte bem muito obrigado, & etc»)

publicado por flordocardo às 00:14
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08
Nov 13

 

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05
NOV 13
Por Maria do Rosário Pedreira

 

Para os extraordinários leitores deste blogue, que tantas vezes se queixam de que conhecem mal a poesia portuguesa, há agora uma forma de emendarem a mão. Na Faculdade de Letras de Lisboa, António Carlos Cortez, poeta e professor, vai dar um curso livre de poesia contemporânea – De Pessoa aos anos 60: Questões de Linguagem Poética – em horário pós-laboral (às terças, 18h30-20h00) entre 19 de Novembro e 6 de Maio. A entrada é livre e o preço bastante baixo, uma vez que, por estes seis meses de aprendizagem, os interessados pagam apenas 100 euros, o que equivale a 20 euros por mês, uma bagatela. Ao longo do curso serão lidos e estudados ritmos, construções, experiências vanguardistas e muito mais aspectos que «mapearam esses trinta anos de evolução poética em Portugal» (palavras do orientador). Entre os poetas, constam Pessoa (lá estão eles a sobrevalorizá-lo…), Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Nemésio, Eugénio de Andrade, Sophia, Ramos Rosa e muitos outros menos conhecidos do público em geral, como, por exemplo, Armando Silva Carvalho. O programa completo no linkabaixo. Para mais informações contacte o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias pelo e-mail clepul@gmail.com ou pelo telefone 217920044.

 

https://www.wetransfer.com/downloads/46b262a2e7c35bff79607bc52135845320131031110207/33b26ddffd43e474a16433181d23434820131031110207/426360

 

(extraído do blogue horas extraordinárias)

publicado por flordocardo às 02:02

 

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E ontem lá se foi o stent, com enorme limpeza. Só visto - como eu vi!

Ou seja: foram-me de novo à uretra (que ainda arde um bocadinho, é certo). 

Está tudo bem. Fiquem descansados.


publicado por flordocardo às 01:49
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06
Nov 13

 

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Amanhã vão tirar-me o stent, caso tudo corra conforme o previsto.

Depois farei novo renograma.

Isto até aparece aquela do Quim Barreiros... O «ponho o carrro, tiro o carro...»

ou lá o que é.

Cá pra mim quem devia andar neste esbardalho era o cretino do Coelho

(que eu não sou de vinganças, mas às vezes...)!


publicado por flordocardo às 15:22
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