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Ago 10

 

*   *

RICOCHETE 

 

Que margens têm os rios
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro de nós?

Que sereia é o poente,
metade não sei de quê
a pentear-se com o pente
do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
de estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
um corpo à alma que é?

                                                Natália Correia (1923-1993)

(do livro «As Maçãs de Orestes» - Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1970)

 

publicado por flordocardo às 16:30
tags:

Disse que voltava e aqui estou. Para dizer que gosto muito deste poema (não conhecia e aliás conheço mal esta poeta). Sabe sempre bem ler poemas assim.
Continue!
M. Silvino a 30 de Agosto de 2010 às 13:07

Obrigado por continuar a passar!
Abraço!
flordocardo a 30 de Agosto de 2010 às 16:56

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