07
Dez 10

 

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

 

              Carlos Drummond de Andrade (Brasil, 1902-1987)

 

(do livro «Sentimento do Mundo» - 1940)

 

publicado por flordocardo às 02:12

Ele segue, mesmo não sabendo pra onde. Belíssimo!
anónima a 7 de Dezembro de 2010 às 10:38

Lindo!
Melt a 7 de Dezembro de 2010 às 17:34

Um poema para sempre!
M. Silvino a 8 de Dezembro de 2010 às 18:22

Acho este poema intemporal.
Abraço! *
Luísa a 8 de Dezembro de 2010 às 21:58

Diria que este poema poderá aplicar-se a muita gente...retrata uma realidade repetida.
Bjinhos
ónix a 9 de Dezembro de 2010 às 22:27

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