05
Abr 11

 

§ § §

 

O NAVIO DE ESPELHOS

 

 

O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

(Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele)

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

(O seu porão traz nada
nada leva à partida)

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

(A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto)

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


                                   Mário Cesariny (1923-2006)


(do livro «A Cidade Queimada» - Assírio & Alvim)

Gelo e navio.jpg
 

publicado por flordocardo às 01:46
tags:

Belíssimo poema!
Bjs! *
Melt a 5 de Abril de 2011 às 17:49

Gosto!
Fica bem!
TF a 5 de Abril de 2011 às 21:00

Para mim, este poema é um clássico da nossa poesia.
Abraço!
M. Silvino a 6 de Abril de 2011 às 01:10

Gosto...nada mais.
Abraço
ónix a 8 de Abril de 2011 às 23:32

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