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Dez 09

 

(breve Conto de Natal)

 
 
I. O Pai Natal, muito antes de ser pai e muitíssimo tempo antes de vir a ser Pai Natal, foi um menino como todos os outros meninos. Isto foi num tempo antigo, muito antigo, lá muito para trás.
 
Tal como os outros, também este menino esperava sempre prendas pelo Natal, ansioso, pondo a sua sandalinha, já meio velha, à beira do braseiro onde a sua família se aquecia dos frios rigores do inverno. Isto era numa altura em que o Natal tinha acabado de ser inventado ainda não havia muitos anos e não se sabe muito bem por quem. Pelo que ele sabia que eram os pais que, perto da meia-noite, lhe punham as prendas na sandalinha.
 
Numa dessas noites de Natal o menino pensou que metendo as duas sandalinhas junto ao braseiro que acabara de acender podia, nessa noite sempre especial, vir a conseguir ter mais presentes do que era hábito. Mas o menino descuidou-se - ou as brasas descuidaram-se por ele - e uma sandalinha pegou fogo à outra enquanto o diabo esfrega um olho, instantes antes dos seus pais voltarem a casa com o rebanho de cabras que todos os dias pastoreavam e que constituía o sustento da família.
 
Aflito, o menino tentou pegar nas sandalinhas e apagar o fogo que célere as consumia, e que arriscava propagar-se ao soalho da humilde casa que habitava. A cara parecia que lhe ardia quando ele chegou ao braseiro. Ardia muito, muito. Primeiro, queimou ligeiramente a mão direita, depois usou panos velhos, um jarro de água… De nada lhe valeram as desesperadas tentativas. O fogo não se propagou ao soalho da casa, mas as sandalinhas velhas não se salvaram. O menino que ainda não era pai e que ainda não imaginava vir um dia a ser Pai Natal começou então a chorar convulsivamente.
 
Escasso tempo depois chegaram os pais do menino. Que se passara? «Estás bem?», «O que é que ardeu?».
 
O menino passado uns segundos lá conseguiu balbuciar umas palavras e depois explicar aos pais o sucedido. Os pais examinaram-lhe as mãos, cuidaram delas. Silenciosos, foram em seguida deitar ao lixo as sandalinhas e ajeitar no estábulo as restantes cabras que, na aflição, tinham deixado ainda ao relento.
 
Quando regressaram, o menino, em silêncio, ainda enxugava as lágrimas com as costas das mãos. Também silenciosos, os pais puseram a mesa: uma toalha branca com arbustos verdes, pão, água, vinho, passas, queijo, uma sopa bem quente. E foi então que lhe disseram, quase a uma só voz: «Come tudo, que é o que temos hoje. E pensa ao comer o que temos que se calhar quiseste o que não te podíamos dar. E depois vai dormir.»
 
Triste, o menino comeu pouco e foi-se deitar logo a seguir - era já noite profunda. Mas não pregou olho, é claro.
 
Quando chegou a meia-noite o menino espreitou pela porta do quarto o braseiro que aquecia a casa. Não viu ninguém. Mas viu umas sandálias novas - que até reluziam - no chão, perto do braseiro que, entretanto, começava a   extinguir-se. Tentando não fazer barulho, correu para lá e pegou nas sandalinhas. Eram lindas e robustas. E junto a elas estava uma cartinha, dos país, que rezava assim: «Era esta a prenda que tínhamos para ti, a única que conseguimos arranjar para esta noite especial. As tuas sandalinhas estavam já muito velhas, mas a tua ambição até essas levou. Aprende, aprende sempre. Mas vês como acertámos? Para o ano será melhor. Perdoamos-te. E Amamos-te!»
 
Então o menino chorou outra vez, sem saber se de tristeza se de alegria; e foi de novo deitar-se, adormecendo depois abraçado às sandalinhas reluzentes.
 
II. Quando o menino ficou mais velho e se tornou rapaz começou a ver os outros rapazes com uns pelitos a espevitarem na cara. Mas no rosto dele, nada. Entre essa primeira impressão desconfortável e a que se seguiu passou para aí um ano. Pelitos nem um. Ele nunca iria ter barba, ele não era como os outros rapazes da sua idade!
 
Ficou triste e preocupado com a sua conclusão, mas não disse nada a ninguém. Nesse dia à noite, na cama, pensou: «Já sei! Tem a ver com aquele Natal! Ou foi do calor que apanhei na cara, ou foi castigo que alguém me deu, sei lá…».
 
Ainda que um tudo nada preocupado lá acabou por adormecer, achando que, no caso de a coisa não ser obra de castigo de alguém, não viria mal algum ao mundo pelo facto dele não vir nunca a ter barba.
 
Foi no dia seguinte, ao fim da manhã, que lhe vieram bater à porta outros rapazes. Que se tinham encontrado e depois falado com os pais todos; que tinham decidido que houvesse alguém entre o povoado encarregue de colocar as prendas no lugar certo na noite de Natal em vez de ser cada família por si, etc., etc. etc. E disseram-lhe ainda que, como gostavam dele e o achavam bom e honesto, o convidavam para essa tarefa dali para a frente.
 
O menino, agora rapaz, rejubilou com a ideia. Ele conhecia bem as alegrias e tristezas dessas noites especiais. Sabia também das dificuldades de vida das famílias do povoado. Assim, aceitou a incumbência. A partir daquele dia ele cumpriu exemplarmente a tarefa. Acho que foi nesse dia que na verdade nasceu a figura do Pai Natal (mas ainda antes do menino, agora rapaz, vir a ser pai)
 
Até que tempos mais tarde o menino que tinha passado a rapaz e agora já era um homem casou e, passado um ano e picos, foi pai de uma doce e linda criança. Foi a partir desse dia de extrema alegria que uma ideia nunca mais o largou… Não havia castigo algum pelo facto de não ter barba como os outros. Mas a partir de agora colocaria uma barba postiça na noite de distribuir as prendas. Até porque agora talvez não conviesse que o novo rebento da família o apanhasse um dia, desprevenido, a colocar as prendas de Natal junto aos braseiros das casas do povoado, nas sandalinhas e sapatinhos dos meninos e meninas, dos rapazes e das raparigas. Estava decidido e assim passou a ser!
 
Os mais velhos habitantes do povoado aceitaram a ideia facilmente e continuaram a pastar os seus rebanhos pelos montes, descansados agora, sabendo que alguém por eles cuidava daquela tarefa tão especial da Noite de Natal - a da distribuição das prendas. E começaram a dizer aos filhos que o Pai Natal viria à meia-noite de Natal, para todo o sempre, distribuir as prendas que possíveis fossem.
 
Foi assim que ficou instituída e popularizada a figura do Pai Natal, num tempo muito, muito antigo e por muitas partes do mundo. Muito antes de se falar sequer no Menino Jesus, muito antes de existir a Coca-Cola, muito antes do Papa Bento XVI ter caído e arrastado consigo, inadvertidamente, um Bispo que fracturou uma perna.
 
E assim se explica também aos mais incautos - sejam meninos, meninas, rapazes, raparigas, homens ou mulheres - que o Pai Natal nunca teve barba, embora até hoje ninguém saiba afiançar por quê - nem sequer o menino a quem um dia arderam as sandalinhas já velhas e que, até ser vivo, conservou consigo as sandalinhas novas, reluzentes e robustas daquela noite acontecida há muito, muito tempo, lá atrás no tempo.
 
Parede, 24/25 de Dezembro de 2009.

 

publicado por flordocardo às 19:51
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