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Mar 13

 

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- 3 Poemas do livro «A Terceira Miséria», de Hélia Correia (n. 1949) -

 

*

 

23. (A terceira miséria é esta, a de hoje)

 

A terceira miséria é esta, a de hoje.

A de quem já não ouve nem pergunta.

A de quem não recorda. E, ao contrário

Do orgulhoso Péricles, se torna

Num entre os mais, num entre os que se entregam,

Nos que vão misturar-se como um líquido

Num líquido maior, perdida a forma,

Desfeita em pó a estátua.

 

 

24. (O que não sabe)

 

O que não sabe

De cor poemas como os que salvaram

Literalmente os soldados que, vencidos

E condenados a morrer à míngua

Ou a serem vendidos como escravos -

Atenienses contra Siracusa -,

Deram aos inimigos, mais valioso

Do que ouro podia ser, versos de Eurípides,

E em troca disso foram libertados.

 

 

33. (De que armas disporemos, senão destas)

 

De que armas disporemos, senão destas

Que estão dentro do corpo: o pensamento,

A ideia de polis, resgatada

De um grande abuso, uma noção de casa

E de hospitalidade e de barulho

Atrás do qual vem o poema, atrás

Do qual virá a colecção dos feitos

E defeitos humanos, um início.

 

 

(Edição da Relógio D’ Água Editores, Fevereiro de 2012)

 

publicado por flordocardo às 18:46
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