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Nov 13

 

 

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o que fica da memória

 

o que fica da memória é um olho a piscar

 

o que fica da memória

gene que sobrevive ao tempo

momento único de uma década

sem testemunhas

certa frase entrecortada

perdura

gesto sobreposto em camadas de tempo

o buraco funerário do coelho

em fuga

um chapéu de bom feltro

a mão de setenta e seis anos nele pousada

alisa

a quilha hábil

moldada pelo século xix

 

o que fica da memória

sobrevive

a doenças e quedas

entrou por algum poro da mente

ali ficou reclinado

acorda sob a luz de uma palavra

ergue-se à vibração de uma árvore interior

 

estava ali desde sempre

e nós em paz porque existia

silencioso

atento

era um ramo pousado no ombro do tempo

agitou-se

estendeu um braço de dentro do braço

amiba bocejante

um pseudo-braço

para sobrevivência instantânea

 

o que resta da memória é um pseudópode

vindo da periferia obscura

brilha como a múmia no museu deserto

do bairro degradado

depois volta a sair pela esquerda baixa

deixando atrás de si a memória desta memória

a reverberar

até se diluir em pó brilhante

lento

caindo a pique

na água cada vez mais escura dos dias

 

 

                                                      Rosa Oliveira (n. 1958)

 

(do livro «Cinza» - Edições tinta-da-china, Lda., Maio/2013)

 

publicado por flordocardo às 16:32
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