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Dez 13

 

*   *

 

A VIDA: ÚLTIMAS TEIMOSIAS

 

À carne são permitidos todos os desastres.

Esta oliveira segura ainda

os próprios intestinos com as mãos. Nada

veio de súbito preveni-la do fim.

Mas não há noites totais. Na mais escura

o peixe do fundo do rio vem até à superfície

fazer sinais com o seu semáforo. Penso

no sorriso da deusa ausente acaso do Olimpo

quando o monje veio procurá-la. Uma deusa

de seios tão firmes que neles se poderia partir

um martelo de bronze. E o Olimpo ensopado pela urina

doutros poetas e doutros monjes mesmo assim de bexigas cheias.

Tu vês? A vida insiste em excesso para que sobrevivamos:

emprenhar deusas! Uma luz intensamente

brilha. Sim! Brilha! Brilha! É uma oliveira

teimando em dar azeite até ao desastre.

 

 

                                                 Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999)

 

(do livro «A Flor Evaporada» -  D. Quixote, Lisboa/1984)

 

publicado por flordocardo às 02:11
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