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Fev 10

 

 

A primeira Guerra Mundial (1914-1918) liquidou o II Reich e o Império

Austro-Húngaro, dando origem ao nascimento das Repúblicas da Alemanha
e da Áustria.
No início dos anos vinte, Mussolini chega ao poder em Itália. Em 1933, Hitler
toma o poder na Alemanha e apoia as forças austríacas mais conservadoras e reaccionárias.
Na Áustria, aproveitando a fraqueza do Estado recém-criado e da própria burguesia, os trabalhadores, entre 1918 e 1920, conquistam uma das legislações mais progressistas da Europa: subsídio de desemprego, jornada de 8 horas de trabalho, direito a férias pagas, etc. Contra tal se encarniçam as forças reaccionárias que, aproveitando a crise capitalista de 1929-1933, vão ganhando terreno. Hitler vem a apoiá-las, perante o colaboracionismo do chanceler Dollfuss, que prefere aniquilar os partidos que se reclamam do marxismo em vez de combater o avanço nazista.
Em Fevereiro de 1934 tem lugar na Áustria um golpe contra-revolucionário fascista destinado a aniquilar a organização operária e a democracia. Os trabalhadores austríacos pegam em armas para defenderem as suas conquistas. A luta mais encarniçada tem lugar nos bairros operários de Viena e de Linz. Os trabalhadores são derrotados e chacinados após quase quatro dias de intensa luta (e em 12 de Março de 1938 as tropas de Hitler entram em Viena; a Áustria fora anexada pela Alemanha nazi).
É disso que fala o belíssimo poema que aqui vos deixo. Passam agora 76 anos.
 
estrela_cinco_pontas_vermelha
 

 

ODE AOS SOCIALISTAS AUSTRÍACOS
 
(12-15 de Fevereiro de 1934)
 
 
Fuzilaram os socialistas austríacos às cinco e meia
Em nome da Áustria triunfante.
                                                   O céu
Era azul de Fevereiro nesses quatro dias frios
E a ligeira neve pousava leve no chão endurecido.
(Viena, a cidade risonha das canções e do vinho,
De Schlagobers*, crianças com fome… e um grande fantasma…)
Haviam decretado a greve geral mas os planos falharam,
Embora a luz tivesse sido cortada na primeira noite.
                                                    É estranho dar
Ao interruptor ao pé da cama e a lâmpada não acender
E então a gente olhar pela janela para a rua às escuras,
Vazia, apenas com um homem correndo de pistola em punho.
Construímos as nossas cidades para as luzes e o violento brilho
E, quando uma sirene grita para as estrelas de Inverno,
É só um fogo, uma ambulância, nada de extraordinário,
Apenas coisas correntes. Pode ir-se até à loja da esquina
Sem perigo de apanhar-se um tiro. As luzes aí estão,
E, se a gente vê um homem de pistola em punho, correndo,
Telefona à polícia ou espera pelos jornais da manhã.
É diferente com a luz cortada e o tiroteio a começar…
 
Eram pessoas vulgares.
Destas que vão ao cinema e gostam de paradas,
Têm filhos, levam-nos ao jardim, andam de carro eléctrico,
Os operários do assento próximo, o velho e competente capataz;
Tu viste-lhes o cachaço um milhão de vezes
Em qualquer multidão, e esqueceste; viste-lhes os rostos
Anónimos, cansados, bem dispostos, rostos de gente treinada
(As mãos rapidamente movendo-se por entre maquinismos,
Mãos de amassador e da mulher do amassador,
Mãos calçadas de borracha, emendando fios faiscantes,
Mãos em controles e alavancas, grandes mãos quadradas.
Com a marca do utensílio gravada nelas,
Obtusos e grosseiros dedos trabalhando obrigações grosseiras,
E outros, que escrevem pensativos, ou sensíveis
Como a boca de um setter). Tu viste os chapéus e os sapatos
                                                                                                [deles
Por toda a parte, em todas as cidades. Não andam bem-postos.
Nas algibeiras têm cotão e pó de tabaco.
Os rostos são os rostos de qualquer multidão.
 
Foi na segunda-feira que isto começou. 
                                                           Levaram tempo,
Mas ficaram entre a espada e a parede. Acreditavam na paz,
Em boas casas, reuniões, eleições, moções,
E não em chacinas rápidas ao virar da esquina, carros blindados
Varrendo a praça, bombas e cabeças ensanguentadas,
Mas tinham visto o que acontecera ao vizinho ao lado, no país
                                                                                                [vizinho,
À gente que acreditava em paz e em eleições,
E a mesma vaga se erguia aqui. Ouvia-se o temporal.
Por fim, pegaram em armas, nos bairros operários,
Onde haviam construído os seus lares para a paz e um calmo futuro.
 
As casas eram altas e muito boas,
Grandes quarteirões de alvenaria, construídos pelo povo para o povo,
Não para fazer um homem rico, pode dar-se ao povo luz e ar
Põe ter-se espaço para dar uns passos - espaço após um dia de
                                                                                               [trabalho -
Podem ter-se livros e água pura e sono sossegado,
Um lugar em que as crianças cresçam.
No mundo inteiro, os homens sabiam destas casas,
Recordemos Karl Marx Hoh, Goethe Hof,
A chamada Matteoti e as outras.
Eram pequenas cidades feitas pelo povo para o povo.
Foram bombardeadas por canhões de seis polegadas.
                                                É estranho subir
As consabidas escadas até ao quarto habitual
E apontar a seca metralhadora da janela,
Estranho ver o negro da pólvora nas nossas mãos…
 
Tinham armas escondidas para uma emergência mas nem eram
                                                               [capazes de as encontrar,
em muitos casos, sendo como eram gente vulgar.
O outro lado estava muito mais preparado - Fey e Dollfuss
E todos os camisas-negras estavam a postos.
                                                        Quando se acredita
Em parques públicos e eleições e reuniões e não em morte,
Não em César,
É difícil crer que virá um dia
Em que se mandam a mulher e os filhos para a cave,
A coberto das granadas, e se subirão as consabidas
Seguras escadas para o quarto familiar,
Com o frio da pistola não familiar nas mãos
E a boca seca de desespero.
                                                É difícil pensar-se
Que, apesar da opressão e do ódio,
Vai acontecer uma coisa destas.
E por isso, quando acontece, tudo falha.
(Bandeiras brancas no Karl Marx Hof e no Goethe Hof,
E as execuções depois).
                                         Um correspondente
Da Imprensa britânica notou, quando tudo acabara
E o deixaram ir ver, que, no conjunto,
Os prédios estavam muito menos destruídos do que se podia
                                                                                          [esperar
De quatro dias de tiroteio. É certo que ele vira, antes,
Um camião carregado de caixões ordinários de pinho
Ir para o bairro em questão.
Mas, no conjunto, os prédios estavam de pé. Eles tinham-nos
                                                                             [construído bem.
Eram essa gente vulgar, e estão mortos.
Mortos onde viviam, pela violência, nos seus próprios lares,
Entre a mesa e a porta e o banco da cozinha,
Mortos nos pátios onde as crianças brincavam
(O queixo da criança despedaçado por uma bala, o carrinho
                                                                                     [sangrento,
A mulher atirada como um trapo nas escadas limpas).
Não cesareanamente, não em glórias bélicas, simplesmente
                                                                                          [mortos.
 
Mortos, ou no exílio muitos, ou temerosos
(e os que ainda vivem e acordam de noite
Recordam a cidade livre),
Silentes e perseguidos, e os seus chefes liquidados.
Os comunistas diziam que não lutavam mas lutaram
Quatro dias de áspero Fevereiro,
Mal dirigidos, em inferioridade numérica, a rádio vomitando
                                                                                      [mentiras,
E os canhões de seis polegadas apontados para eles e a
                                                                       [esperança perdida
Quatro dias no Karl Marx Hof e no Goethe Hof
E ninguém sabe quantos lá morreram.
E as pessoas sensatas agacharam-se e aceitaram as bandeiras,
As insígnias e as braçadeiras, a mordaça e a tirania,
A rebrilhante e metálica paz do César
                                                       Não tinham sido tão sensatas
Naqueles quatro dias de Fevereiro, há dois anos.
 
Não tragam flores,
Nem do monte nem dos vales,
Nem mesmo as flores vulgares dos terrenos vagos
Que ainda são de graça para os pobres;
Nem coroas ponham nestas sepulturas de gente sem lar;
Tragam, sim, o metal negro da pólvora
Das caixas de munições, as escórias, o aço rasgado
E o chumbo que despedaça ossos,
Estéreis, cheirando acremente a morte,
E amontoem-nos aqui, até que o ferro enferruge, como recordação.
 
Chantilli, natas batidas                                              
 
 
 
                                                   Stephen Vincent Benét  (EUA, 1898-1943)
 
(extraído do livro «Poesia do Século XX
- De Thomas Hardy a C. V. Cattaneo»,
Editorial Inova, Porto, Julho de 1978; antologia, tradução prefácio e notas
de Jorge de Sena) 

 

publicado por flordocardo às 00:02

Estive a ler este post com toda atenção...dá que pensar e surge-nos sempre aquele habitual "porquê"? E será sempre o povo a sofrer, a tentar e a não conseguir. E será eternamente assim. Infelizmente.
Abraço.E sim, por aqui chove e faz frio...cenário deprimente.
ónix a 16 de Fevereiro de 2010 às 23:10

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